Socialmente aceito, o álcool ainda é visto como inofensivo por grande parte da população. No entanto, trata-se de uma substância tóxica, capaz de provocar dependência, danos cerebrais, doenças graves e até morte. No Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo, celebrado nesta sexta-feira (20), médicos do Instituto de Gestão Estratégica de Saúde do Distrito Federal (IgesDF) chamam a atenção para um problema silencioso que compromete o corpo, a mente e as relações sociais.
“O álcool é uma substância altamente tóxica, capaz de provocar danos significativos ao cérebro e aos neurônios. A síndrome de abstinência alcoólica está entre as mais graves quando comparada a outras substâncias e pode evoluir para a forma gravíssima do quadro, com alta taxa de mortalidade”, explica Sérgio Cabral Filho, chefe do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Base do Distrito Federal.
Segundo o médico, além dos prejuízos diretos ao organismo, o álcool também aumenta o risco de comportamentos perigosos. “Em estado de alteração, a pessoa pode ficar mais agressiva, se envolver em brigas, dirigir alcoolizada ou sofrer intoxicação alcoólica grave, que pode levar ao coma”, acrescenta.
De acordo com o especialista, o consumo de álcool, drogas ilícitas e até alguns medicamentos, como sedativos e opioides, pode causar dependência porque essas substâncias atuam diretamente no sistema de recompensa do cérebro. Elas aumentam a liberação de dopamina, neurotransmissor ligado à sensação de prazer, reforçando o comportamento de uso.
“Algumas drogas, como heroína e crack, liberam grandes quantidades dessa substância e têm alto potencial de vício. Além disso, há pessoas com maior predisposição à dependência por características neurológicas próprias”, aponta.
Dependência química é doença e exige cuidado
A dependência química costuma se manifestar por prejuízos progressivos na vida pessoal, profissional e social. Entre os principais sinais estão perda de interesse por atividades antes prazerosas, isolamento, queda no desempenho no trabalho ou nos estudos e foco excessivo no consumo.
“Quando a pessoa passa a viver em função da próxima dose e perde objetivos de vida, esse é um sinal importante de dependência. Muitas vezes, ela também rompe vínculos sociais e familiares”, destaca o psiquiatra.
O apoio familiar, segundo ele, é fundamental, especialmente porque a dependência pode comprometer a capacidade de reconhecer o problema ou de buscar ajuda espontaneamente.
O estigma ainda é um dos principais obstáculos para o tratamento. Muitos pacientes evitam procurar assistência por medo de julgamento ou discriminação. “A dependência química é uma doença. Quando ela se instala, a pessoa perde a liberdade de escolha sobre o uso. O que ela pode escolher é iniciar o tratamento. Com apoio adequado, é possível recuperar a autonomia”, afirma.
O especialista também ressalta a relação entre dependência e saúde mental. Embora algumas pessoas utilizem substâncias como forma de aliviar sintomas de ansiedade ou depressão, a maioria dos casos de dependência surge pelo efeito direto da droga no cérebro. Uma vez instalada, pode desencadear ou agravar transtornos psiquiátricos, como depressão, crises de ansiedade, pânico e até quadros psicóticos.
Pessoas com predisposição genética, como histórico familiar de esquizofrenia, por exemplo, apresentam risco aumentado. “Se há vulnerabilidade genética e o uso começa cedo, isso pode antecipar ou desencadear quadros psiquiátricos graves”, alerta.
Quando há associação entre dependência e outro transtorno mental, o tratamento da dependência deve ser priorizado. “Se o paciente apresenta depressão e dependência alcoólica, por exemplo, é essencial tratar primeiro a dependência para depois abordar adequadamente o quadro depressivo”, observa.
A prevenção entre adolescentes e jovens exige atenção redobrada, já que o cérebro ainda está em desenvolvimento e mais suscetível aos efeitos tóxicos das substâncias. “Essas substâncias podem comprometer o desenvolvimento cerebral e desencadear quadros psiquiátricos graves, às vezes irreversíveis. O diálogo em casa e nas escolas é fundamental”, reforça o psiquiatra.
Álcool pode causar danos físicos graves e irreversíveis
Do ponto de vista clínico, o álcool pode afetar praticamente todos os órgãos. A supervisora da Residência Médica em Hepatologia do Hospital de Base, Liliana Mendes, destaca que fatores biológicos tornam algumas pessoas ainda mais vulneráveis. “As mulheres têm menor capacidade de metabolizar o álcool no estômago, o que faz com que a mesma quantidade ingerida resulte em níveis mais elevados no sangue, aumentando o risco de danos aos órgãos”.
Entre as principais complicações estão doenças cardiovasculares, pancreatite, lesões gastrointestinais e enfermidades hepáticas graves. “O álcool pode provocar hepatite alcoólica, esteatose hepática e cirrose. Em estágios avançados, pode levar a hemorragia digestiva, acúmulo de líquido no abdômen e até câncer de fígado”, adverte.
Segundo a especialista, ainda persiste a ideia equivocada de consumo seguro. “Não existe quantidade segura de álcool. Mesmo pequenas doses podem provocar inflamação hepática e agravar doenças metabólicas, como diabetes e hipertensão”.
Outro ponto de atenção é a associação entre transtornos psiquiátricos, compulsão alimentar e consumo de álcool, especialmente após cirurgia bariátrica. “Se a compulsão não for tratada, o paciente pode substituir a comida pelo álcool após a cirurgia. Isso reforça a importância do acompanhamento psicológico e psiquiátrico”, enfatiza a hepatologista.
Para a especialista, campanhas de conscientização devem ampliar o debate sobre os impactos do álcool e das drogas na saúde, indo além dos riscos no trânsito.
Tratamento é possível e acessível
O tratamento da dependência envolve desintoxicação, acompanhamento médico, suporte psicológico e, em alguns casos, uso de medicamentos. A rede pública oferece atendimento especializado por meio dos Centros de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (CAPS AD), com equipe multiprofissional formada por médicos, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros.
“A motivação é uma ferramenta essencial no tratamento. Mesmo diante de recaídas, o mais importante é retomar o plano terapêutico o quanto antes”, orienta o psiquiatra Sérgio Cabral.