O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda calcula o tom que adotará após a decisão do governo dos Estados Unidos de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, mas, segundo auxiliares, a reação deve, dentre outros aspectos, reforçar a preocupação que já vinha sendo discutida nos bastidores do Palácio do Planalto, como possíveis impactos econômicos e financeiros da medida.
Integrantes do Planalto enxergam risco de que a classificação abra caminho para sanções e barreiras às instituições financeiras no Brasil, que ainda que indiretamente, apareçam em investigações relacionadas às organizações criminosas.
A preocupação é que o enquadramento do PCC e do Comando Vermelho em legislações antiterrorismo dos Estados Unidos, portanto, produza efeitos semelhantes aos observados em outros países da América Latina, especialmente no México.
Após o encontro entre Trump e Flávio Bolsonaro (PL), integrantes do governo já usavam o caso mexicano como exemplo de alerta, com argumento de que o endurecimento da política americana contra cartéis atingiu bancos e instituições no país.
O receio de auxiliares de Lula é que, a partir da classificação, instituições financeiras globais passem a adotar posturas mais rígidas em relação a operações envolvendo o Brasil.
A avaliação dentro do governo é que o tema pode ganhar uma dimensão difícil de ser controlada caso haja ampliação de mecanismos de sanção utilizados pelos Estados Unidos.
Por essa razão, auxiliares de Lula defendem que o governo brasileiro reforce o discurso de cooperação internacional no combate ao crime organizado, mas sem admitir iniciativas que possam ser interpretadas como formas de tutela externa sobre instituições brasileiras ou que gerem impactos para a atividade econômica.
Lula deverá enfatizar justamente os efeitos colaterais da medida, apresentando o Brasil como parceiro no enfrentamento ao crime organizado transnacional, mas defendendo que o combate às facções ocorra por meio dos instrumentos tradicionais de cooperação policial, judicial e diplomática.
A expectativa no governo é que esse seja um dos principais argumentos utilizados pelo presidente nos próximos dias para rebater a medida adotada pela Casa Branca.
O Brasil já vinha defendendo uma atuação conjunta com os Estados Unidos no combate ao crime organizado, por meio da troca de informações, do enfrentamento à lavagem de dinheiro, do combate ao tráfico de armas e do rastreamento de recursos ilícitos.
Um documento com uma proposta formalizada de cooperação entre os países foi entregue em mãos ao presidente Trump por Lula, em maio. Na ocasião, a possibilidade de classificação das organizações criminosas como terroristas acabou não sendo assunto entre os dois presidentes.