Para as cerca de 700 mil pessoas que circulam diariamente pela Rodoviária do Plano Piloto, entre passageiros e trabalhadores locais, a rotina no terminal ganhou novos contornos de segurança e dignidade. Prestes a completar o primeiro ano de concessão, nesta segunda-feira (1º/6), o espaço administrado pela Concessionária Catedral registrou um salto expressivo de aprovação, passando de 45,61% para 86,13%, segundo levantamento do Instituto Opinião feito com usuários do terminal.
As mudanças mais celebradas por quem vivencia o dia a dia do local incluem as estruturais na segurança, a recuperação da acessibilidade e a formalização do comércio local. A concessionária administra a infraestrutura, mas quem continua controlando o sistema de transporte é a Secretaria de Transporte e Mobilidade do Distrito Federal (Semob-DF).
Com o novo contrato de 20 anos, a pasta assumiu o papel estratégico de concedente, migrando da antiga administração direta para um modelo de gestão por resultados. Após conduzir todos os estudos de viabilidade técnica da concessão, a pasta, agora, fiscaliza, avalia e remunera a Catedral com base na entrega dos serviços, monitorados por auditores do GDF e pelo feedback direto dos passageiros. A operação dos ônibus, a política tarifária e a regulação das linhas permanecem sob comando público, respeitando o status do terminal como o principal nó de integração da mobilidade no DF.
Para que o GDF garanta a qualidade desse atendimento, a secretaria exerce uma robusta fiscalização digital e analítica, que vai além do trabalho presencial. O contrato obriga a integração tecnológica contínua do novo Centro de Controle Operacional (CCO) da concessionária com as bases de dados públicas da Semob. Por meio de acesso remoto, os técnicos do governo conseguem cruzar dados operacionais em tempo real, supervisionar os indicadores de desempenho e auditar o sistema para garantir que os usuários recebam informações precisas sobre plataformas, fluxos de embarque e horários de ônibus.
Aperfeiçoamento
O administrador da Rodoviária, Leonardo Moreira, porta-voz da Catedral, destaca que a rápida resposta às necessidades urgentes de mobilidade interna ajudou a conquistar a confiança da população. “Nós entregamos as escadas rolantes em funcionamento já no primeiro dia de trabalho. Já estamos com as 12 escadas rolantes modernizadas e com os elevadores também em funcionamento”, detalha o gestor. Ele ressalta que a manutenção atual é ininterrupta e, em caso de parada, a equipe coloca o equipamento para operar novamente em cerca de 10 minutos. Com a revitalização do terminal, a própria atitude dos passageiros mudou. “A população, à medida que vai vendo os benefícios e melhorias, também vai ajudando, vai colaborando. A gente diminuiu bastante o índice de vandalismo, está quase zero hoje”, comemora.
O cronograma avança com outras intervenções na infraestrutura. “Iniciamos a reforma dos banheiros. Nós teremos banheiros aqui padrão de shopping, de aeroporto”, anuncia Moreira, acrescentando que a recuperação dos pilares já foi finalizada e que as equipes trabalham nas vigas e lajes. “Melhor que números, é entregar os benefícios para a população. O que a gente está preocupado é em atender bem o usuário que passa por aqui todos os dias”, pondera.
Acessibilidade e segurança
Gargalos históricos que afetavam a rotina de passageiros e trabalhadores foram solucionados ao longo deste primeiro ano. Hoje, as 12 escadas rolantes e os elevadores operam normalmente sob um regime de manutenção preventiva 24 horas. Além disso, a implantação do novo CCO, integrado com 62 câmeras de videomonitoramento com reconhecimento facial, fez com que a avaliação positiva do quesito segurança crescesse mais de 53 pontos percentuais na pesquisa — de 32,70% para 85,89%
Para Manoela Suzart, que viaja com a filha cadeirante, a Elisa, de 6 anos, a transformação do terminal simplificou a mobilidade. “Facilitou e melhorou muito. Antes, tinha muitos ambulantes, ficava muito difícil passar com ela”, cita, ao relembrar que as mercadorias espalhadas pelo chão atrapalhavam o trânsito de pedestres, especialmente daqueles com mobilidade reduzida. “E também a questão do elevador, agora eu me sinto mais segura dentro do elevador, porque eu tinha medo, vivia quebrando. Eu também não tenho mais medo de roubo. Eu ando tranquila, sem medo nenhum”, conta a moradora do Itapoã.
A desobstrução dos corredores e o novo padrão da rodoviária também são celebrados por profissionais da educação inclusiva. Karina Gonçalves, professora de Orientação e Mobilidade do Centro de Ensino Especial de Deficientes Visuais (CEEDV), lembra que o cenário anterior era desafiador. A educadora auxilia alunos com deficiência visual a transitar de forma autônoma pela cidade. Com a modernização da rodoviária, o terminal passou a ser palco das salas de aula. “Antes, era um horror fazer esse ensinamento para os alunos aqui. Era inviável”, afirma, destacando a falta de elementos de acessibilidade. “Ainda tinha os camelôs, cujo som era muito alto. Sem os camelôs, o barulho excessivo diminuiu. Está muito melhor a travessia dos alunos aqui pela rodoviária e está mais fácil para eu dar aula”, completa Karina.
De ambulantes a lojistas formais
A desocupação das áreas de circulação mencionada pelos passageiros é resultado de um trabalho humanizado. Em parceria com órgãos do GDF e do Sebrae, a concessionária abriu diálogo com antigos ambulantes e organizou reuniões para que eles pudessem se regularizar e manter o trabalho na rodoviária.
A nova gestão mudou a realidade comercial do complexo: são 150 lojas, que geram emprego para cerca de 450 trabalhadores. Nessa transição de modelo para um ambiente de negócios mais moderno, os comerciantes, que antes atuavam sob a figura de permissionários, passaram a operar oficialmente como locatários.
É o caso de Alex Alves, vendedor de açaí, que trabalhou de maneira informal na rodoviária por 15 anos. Com a ajuda da concessionária, ele hoje tem um carrinho padronizado e legalizado. “Essa fase de ambulante que passei aqui na rodoviária não foi fácil. Era correria, muito sofrimento, perdi mercadorias. [Regularizar] foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida, acabou aquela correria, aquela discriminação. É só alegria, e as vendas dobraram”, comemora o empresário, que construiu do zero o carrinho que usa, com dicas da arquiteta da Catedral